domingo, 18 de janeiro de 2009

Helicoidal

Tradicionalmente, no Ocidente o Tempo é visto como se fosse uma recta do ponto A ao B. Uma das características mais extraordinárias dessa recta é que o sentido é único: pode ser de A para B ou de B para A, mas nunca se volta a A depois de atingir B. Quando pensamos no assunto, até faz sentido.

Tradicionalmente, no Oriente, mais concretamente na Índia, o Tempo é visto como um circulo. Atingimos A, vamos a B, passa-se por C, regressamos a A, e por ai adiante. Quando pensamos no assunto, até faz sentido.

Física à parte, o que é que isto tudo nos diz? Que as coisas começam e acabam? Ambas as abordagens concordam com isso. Que as coisas repetem-se no Tempo? Novamente, ambas as abordagens não se contradizem, apenas explicam essa situação de formas diferentes.

A que conclusão é que chegamos? Qual das duas abordagens está errada, ou, pelo menos, mais certa?

A verdade é ambas as interpretações do Tempo aqui expostas foram implementadas por sistemas religiosos, e quando a Religião intervêm em assuntos fora do divino, tudo pode acontecer, pois normalmente a Religião necessita que o Mundo seja estável e previsível para que as suas mensagens consigam ser aceites. Limpas as nossa observações dos conceitos que lhe possam criar distorções, chegamos à conclusão que ambas as abordagens estão certas e ambas as abordagens estão erradas.

O Tempo evolui em ciclos, e ao fim de determinado tempo, dão-se determinados eventos que de tão semelhantes a outros já ocorridos, podem ser considerados como uma repetição do mesmo evento.

Na realidade é impossível repetir o que quer que seja, até mesmo o simples acto de bater as palmas repetidamente não é possível, pois o local no espaço onde as nossas mão se encontraram da primeira vez é diverso do local onde as mãos se encontram da segunda. A Terra gira no seu eixo, desloca-se à volta do Sol. Este por sua vez move-se na Via Láctea. Esta caminha para algures. O Tempo e o Espaço são as duas faces da moeda Realidade. Retira-se um e outro deixa de fazer sentido.

A dificuldade é que ambas as abordagens são observáveis na realidade, e assim sendo, ambas são verdadeiras, no entanto, as abordagens anulam-se entre si, visto que uma recta não é um circulo.

A única forma geométrica capaz de conciliar uma recta e um circulo é a da helicoidal, pois é aquela que permite que os eventos se repitam no Tempo, sem efectivamente se repetirem no mesmo Espaço.

A explicação que acaba por fazer sentido é a da helicoidal, com eventos previsíveis em ambas as direcções do Tempo e sem uma única repetição.

Conclusão, é possível aprender com os nossos erros e ensinar os outros a não errar da mesma forma que nós.


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Candeeiros de Sal

Existem há venda em lojas e naquelas feiras de curiosidades e artesanato do mundo uns candeeiros esculpidos a partir de sal-gema. São cor-de-laranja e supostamente são bons para um qualquer efeito a que não prestei atenção.

O motivo deste texto é simples. Essas pequenas inutilidades são verdadeiras alegorias ao ser humano.

O sal, mesmo o sal-gema, é branco, sem cor se assim o preferirem. Mas os candeeiros variam entre o rosa suave e o roxo escuro, cores resultantes de todas aquelas coisas que se juntaram ao sal. O interesse destes candeeiros advêm destas variações de cores, não existem dois que sejam iguais. Colocando uma vela ou uma lâmpada lá dentro e as cores e os tons ampliam-se com a luz. Tornam-se mais que simplesmente um bocado de sal com uma lâmpada no meio.

Assim, qual é a semelhança entre um candeeiro de sal e uma pessoa?

Na nossa essência todos somos iguais: ossos por dentro, pele por fora, dois braços, duas pernas, uma cabeça, cérebro opcional; enfim um ser humano comum.

O que nos torna únicos é o mesmo que torna os bocados de sal-gema únicos, são todos aqueles elementos que se juntam à neutralidade da biologia para nos tornarem mais que simplesmente um macaco sem pêlo.

Os candeeiros, sendo feitos de sal, exigem cuidados. Absorvem a humidade do ambiente e derretem se não forem utilizados. O mesmo acontece aos seres humanos. Quando dentro de nós não arde uma chama que nos aqueça, que nos faça brilhar, acabamos por desaparecer, por derreter como se fosse-mos um candeeiro de sal.

Se um candeeiro de sal não for utilizado por algum tempo, ainda assim pode ser recuperado, mas as marcas da negligência ficam-lhe gravadas para quem quiser ver. Algumas dessas marcas a seu tempo acabarão por destruir o candeeiro, mas na realidade estarão apenas a acabar algo que apenas foi interrompido. Assim é com aquilo que negligenciámos.

Com a pessoas acontece o mesmo, quando damos atenção, quando cuidamos para que a chama interior não se apague, as coisas que nos ferem, como a humidade a um candeeiro de sal, acabam por simplesmente não nos afectar, ou então não possuem a força necessária para nos destruir e os seus efeitos tornam-se parte de nós. Mas quando somos deixados a um canto a absorver as humidades deste mundo sem forma de as expulsar de nós, criamos fendas, perdemos a forma que nos define e deixamos de ser pessoas.

A maior diferença entre um candeeiro de sal e um ser humano, não é o facto óbvio de um ser humano não ter realmente nada a ver com um bocado de sal esculpido. É que se um candeeiro de sal derreter, está apenas a regressar à Natureza. Se um ser humano desaparecer, é todo um universo de possibilidades e maravilhas que desaparecem.

Se duvidam desta afirmação, da próxima vez que saiam à rua reparem em quantos macacos sem pêlo, sem chama e sem alma, encontram no vosso caminho a falar ao telemóvel ou a comprar ou vender artigos numa loja.