Candeeiros de Sal
Existem há venda em lojas e naquelas feiras de curiosidades e artesanato do mundo uns candeeiros esculpidos a partir de sal-gema. São cor-de-laranja e supostamente são bons para um qualquer efeito a que não prestei atenção.
O motivo deste texto é simples. Essas pequenas inutilidades são verdadeiras alegorias ao ser humano.
O sal, mesmo o sal-gema, é branco, sem cor se assim o preferirem. Mas os candeeiros variam entre o rosa suave e o roxo escuro, cores resultantes de todas aquelas coisas que se juntaram ao sal. O interesse destes candeeiros advêm destas variações de cores, não existem dois que sejam iguais. Colocando uma vela ou uma lâmpada lá dentro e as cores e os tons ampliam-se com a luz. Tornam-se mais que simplesmente um bocado de sal com uma lâmpada no meio.
Assim, qual é a semelhança entre um candeeiro de sal e uma pessoa?
Na nossa essência todos somos iguais: ossos por dentro, pele por fora, dois braços, duas pernas, uma cabeça, cérebro opcional; enfim um ser humano comum.
O que nos torna únicos é o mesmo que torna os bocados de sal-gema únicos, são todos aqueles elementos que se juntam à neutralidade da biologia para nos tornarem mais que simplesmente um macaco sem pêlo.
Os candeeiros, sendo feitos de sal, exigem cuidados. Absorvem a humidade do ambiente e derretem se não forem utilizados. O mesmo acontece aos seres humanos. Quando dentro de nós não arde uma chama que nos aqueça, que nos faça brilhar, acabamos por desaparecer, por derreter como se fosse-mos um candeeiro de sal.
Se um candeeiro de sal não for utilizado por algum tempo, ainda assim pode ser recuperado, mas as marcas da negligência ficam-lhe gravadas para quem quiser ver. Algumas dessas marcas a seu tempo acabarão por destruir o candeeiro, mas na realidade estarão apenas a acabar algo que apenas foi interrompido. Assim é com aquilo que negligenciámos.
Com a pessoas acontece o mesmo, quando damos atenção, quando cuidamos para que a chama interior não se apague, as coisas que nos ferem, como a humidade a um candeeiro de sal, acabam por simplesmente não nos afectar, ou então não possuem a força necessária para nos destruir e os seus efeitos tornam-se parte de nós. Mas quando somos deixados a um canto a absorver as humidades deste mundo sem forma de as expulsar de nós, criamos fendas, perdemos a forma que nos define e deixamos de ser pessoas.
A maior diferença entre um candeeiro de sal e um ser humano, não é o facto óbvio de um ser humano não ter realmente nada a ver com um bocado de sal esculpido. É que se um candeeiro de sal derreter, está apenas a regressar à Natureza. Se um ser humano desaparecer, é todo um universo de possibilidades e maravilhas que desaparecem.
Se duvidam desta afirmação, da próxima vez que saiam à rua reparem em quantos macacos sem pêlo, sem chama e sem alma, encontram no vosso caminho a falar ao telemóvel ou a comprar ou vender artigos numa loja.
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